Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Correspondência entre Leibniz e Lady Masham

Apresentação da correspondência entre Leibniz e Lady Masham


A correspondência entre G. W. Leibniz (1646-1716) e Lady Damaris Masham (1658-1708) decorre entre 1703 e 1705, e tem como pano de fundo a apresentação da Hipótese de Lebniz sobre a Harmonia preestabelecida e da filosofia monadológica. Nesta altura, Leibniz procura expor detidamente o seu sistema de forma a que seja cada vez mais aceite entre os seus interlocutores. Neste sentido, a compreensão do que está em causa nestas cartas fica impossibilitada sem a leitura de três textos-chave. Um deles, que está estreitamente relacionado com a correspondência, é o Sistema Novo da Natureza (1695), que Lady Masham terá lido. Os outros dois, são textos menos directamente relacionados mas com impacto também sobre a leitura desta correspondência: Da Natureza em Si Mesma (1698) e Controvérsia com Stahl (1709-1712).
Lady Masham era uma senhora inglesa filha de R. Cudworth (1617-1688), intelectual de grande prestígio entre os platónicos de Cambridge, em meados do século XVII. Tal como o marca a sua obra O Verdadeiro Sistema Intelectual do Universo (publicada em 1678), Cudworth tem a pretensão de combater a tese do determinismo e do fatalismo como causas da Natureza. Leibniz aprecia a obra de Cudworth e procura apresentar os pontos em que esta se assemelha com o seu Sistema. Como claramente transparece principalmente nas primeiras cartas, as teses sustentadas na Hipótese de Leibniz constituem-se numa cuidadosa conjugação entre “inovação” e “tradição”. Por um lado, Leibniz pretende adoptar a orientação da filosofia clássica, na reformulação de termos como substância, forma, princípio, isto é, a tentativa recuperação da metafísica debilitada na modernidade. No entanto, por seu lado, o que resulta desta reestruturação é algo bastante diverso do que na filosofia clássica se estabelecia. Ora, justamente a estratégia de Leibniz, e que se salienta de forma muito vigorosa nesta correspondência, prende-se com conduzir o leitor a “ver-se” forçado a concordar com as teses totalmente “inovadoras” da sua filosofia, a pretexto de ser um pensamento inscrito numa vasta e sólida tradição.
Uma das noções mais nucleares discutida nesta correspondência é a noção de forma.
De acordo com o Princípio de Uniformidade da Natureza (de que é apologista), Leibniz defende que todo o universo deve ser constituído por substâncias unas, simples e indivisíveis, tal como acontece no homem e na natureza envolvente.uma substância tem de ser inevitavelmente una, simples, indivisível – a mónada. Cada mónada é acompanhada por um corpo orgânico que se caracteriza por ser, justamente, o ponto de vista a partir do qual a mónada viva representa o mundo que a rodeia.
Uma das matizes que na Correspondência se salienta (à semelhança da estrutura do Novo Sistema) é a questão da união corpo-alma. Leibniz procura contrariar a hipótese do Ocasionalismo recorrendo a uma insistente apologia do natural. A ideia do Ocasionalismo implicava a intervenção divina permanente no ajustamento do corpo à alma. Ora, como Leibniz afirma com agudeza, esta formulação “é pouco conveniente à filosofia, que deve explicar o curso ordinário da natureza”. Assim, ao contrário do que irremediavelmente se concluiria na hipótese do milagre, a matéria não está “dispensada” da ordem geral do universo. Por seu lado, a união alma-corpo não implica influência real entre ambos, pois tanto corpo como a alma seguem cada um as suas leis (respectivamente, as leis mecânicas e as leis dos apetites) sem possibilidade de se confundirem, mas ainda assim encontram-se num perfeito acordo segundo a harmonia preestabelecida.
A Hipótese de Leibniz apresenta-se como plausível para Lady Masham, sendo que esta revela com grande lucidez as principais dificuldades que o sistema leibniziano apresenta. Os problemas mais complexos apontados por Lady Masham são dois. Por um lado, qual a justificação de que para a matéria o organismo adquira um carácter essencial; por outro lado, o esclarecimento da ousada tese de que uma substância simples é forçosamente inextensa.
De um impacto indiscutível entre os contemporâneos, o sistema da natureza concebido por Leibniz foi submetido neste diálogo a mais uma prova, a qual possibilitou um enriquecimento das teses de Leibniz. Atendendo às dificuldades surgidas nesta correspondência, Leibniz elaboraria posteriormente as suas decisivas Considerações sobre os Princípios de Vida (1705), onde expressamente defende a afinidade entre a sua filosofia monadológica do organismo e a doutrina das naturezas plásticas, assumida por Cudworth.

Teresa Tato Lima

Bolseira do projecto “Filosofia, Medicina e Sociedade”

Domingo, 3 de Janeiro de 2010

Corpo, poesia e afecto

Nesta primeira semana de 2010, vai ser entregue ao editor (Colibri) um volume organizado por Adelino Cardoso e Palmira Fontes da Costa, intitulado "Corpo, Poesia e Afecto em Albrecht von Haller". Num total de 130 páginas, esta publicação é constituída por estudos de Guido Giglioni, Marisa Russo, Rina Knoeff, Palmira Fontes da Costa, Adelino Cardoso e Fernando Silva. Incluem ainda a obra três textos de Haller, traduzidos para portugês: um escrito sobre a origem dos monstros e dois poemas, "Os Alpes" e "A eternidade".
Médico, filósofo, poeta, enciclopedista, Albrecht von Haller (1708-1777) desenvolveu um trabalho inovador ao nível da Fisiologia experiemental.
A edição deste volume estará concluída no início da Primavera.